
Criado pelo escritor Bram Stocker e popularizado pelo cinema, o tema dos vampiros se recicla para agradar ao público jovem
Pelo menos no cinema, já não se fazem vampiros, lobisomens e fantasmas como antigamente. Em vez do sinistro conde Drácula vivido no passado pelos feios atores Bela Lugosi e Christopher Lee, a sensação do momento é o vampirinho adolescente do filme “Crepúsculo”, maquiado como se fosse um astro “pop” prestes a empunhar sua guitarra. Muito desejoso de tornar-se um ser humano normal, ávido de sugar somente saliva feminina, o “light” e belo morcego Edward não se retorce sedento à cata dos convencionais filetes de sangue jorrando de um pescoço marmóreo.
“Crepúsculo”, dirigido por Catherine Hardwicke e baseado num “best-seller” de Stephenie Meyer, tem dividido as opiniões da crítica. Enquanto os mais românticos vêem na história uma lírica sublimação do tema clássico da atração sexual, outros chegam a afirmar que essa fantasia de amor quase platônico, entre uma jovem normal (Kristren Stewart) e um belo vampirinho (Robert Pattinson, intérprete do personagem Cedrico Diggory no quarto filme da franquia Harry Potter), não passa de uma apologia à preservação da virgindade, tão apregoada em meio aos anacrônicos padrões de puritanismo do recém-findo governo Bush.
Na realidade, o filme enfoca bem mais o romance juvenil do que as potenciais inovações passíveis de serem exploradas dentro dessa nova concepção vampiresca. Sem um necessário aprofundamento temático, com intenções bem explícitas de agradar ao público mais jovem, o popular “Crepúsculo”, embora seja razoavelmente realizado como cinema, está mais para “sessão da tarde” do que para suposto revolucionário da linhagem iniciada no cinema de terror pelo pioneiro conde Drácula.
Vampiros “light”
O tema do vampirismo já vinha sendo amenizado anteriormente, tanto no cinema quanto na televisão. Os sucessores de Drácula vêm se transformando em galãs sedutores desde “A Hora do Espanto”, onde Chris Sarandon (irmão da excelente atriz Susan Sarandon) interpretou o mais sensual consumidor de sangue humano já surgido em Hollywood. Mas foi a escritora Anne Rice, quando seu livro “Entrevista com o Vampiro” chegou às telas, quem reativou de vez a memória coletiva das velhas produções interpretadas por Bela Lugosi e Christopher Lee (dirigidas, respectivamente, por Tod Browning e Terence Fisher), embora impregnando os personagens de exótico glamour e ousando, inclusive, dar-lhes conotações homossexuais. A comunidade gay vibrou, em “Entrevista com o Vampiro”, com o ardente sugar do belo Tom Cruise no viril pescoço do não menos bonito Brad Pitt - e até mesmo espectadores menos maliciosos não deixaram de perceber a intenção de agradar às minorias sexuais na cena em questão. É como se o gênero quisesse adaptar-se à cada época.
“Nosferatu”, de F.W. Murnau, realizado na década de 1920 e considerado o clássico dos clássicos em matéria de vampirismo, adotava o expressionismo alemão como valioso acréscimo estético à linguagem cinematográfica do cinema mudo. Ao fazer notável uso da fotografia em preto-e-branco, Murnau utilizou o negativo, com extraordinária propriedade, para a cena marcante onde surgem três árvores brancas contra um céu negro. A refilmagem de Werner Herzog foi competente, com um ótimo Klaus Kinski como Nosferatu, mas está longe de somar os méritos e a criatividade da produção original. Já “A Dança dos Vampiros”, de Roman Polanski, coincidiu com a época em que os movimentos de liberação sexual estavam no auge.
“Drácula de Bram Stocker”, de Francis Ford Coppola, onde também está presente o novo conceito do vampiro sedutor, é bem mais um filme de amor do que uma produção aterrorizante. Com ótima interpretação de Gary Oldman, todo o desenrolar da trama está impregnado de lascívia e sensualidade, compondo um visual impactante de requintada estética.
Retiro forçado
Mais recentemente, os heróis de revistas em quadrinhos, ou de mundos fantásticos como os explorados nas séries “Harry Potter” e “O Senhor dos Anéis”, aposentaram os vampiros por algum tempo. Com o lançamento de “Crepúsculo”, o gênero almeja uma retomada, aproveitando a metáfora da virgindade feminina e o recrudescimento de movimentos reacionários em relação a cenas de sexo, sobretudo nos Estados Unidos, onde teorias criacionistas voltaram a ser ensinadas em escolas e fazem proliferar movimentos jovens pela abstenção de relacionamento íntimo antes do casamento.
Se essa tendência “rósea” prevalecer no cinema americano, tal como aconteceu nos tempos da crise econômica ocorrida após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, os fãs remanescentes das sangrentas e tumulares aparições de Drácula terão que se amoldar ao tom água-com-açúcar do novo estilo, ou contentar-se em cultuar seu mito da Transilvânia somente através de antigos filmes lançados em DVD. Continuações de “Crepúsculo” já estão programadas, a partir de obras mais recentes da sua autora, tais como “Lua Nova” e “Eclipse”, com temas explicitamente enluarados a partir das próprias denominações dos livros.
Rixa antiga
O escritor irlandês Bram Stocker (1847-1912), inspirou-se no sanguinário príncipe Vlad III da Transilvânia para criar seu imortal personagem, o vampiro Drácula. Pertencente a uma família cristã, Vlad cometeu bárbaras atrocidades contra os muçulmanos, conseguindo tornar-se rei da Valáquia, que junto com a Transilvânia e a Moldávia formariam a Romênia atual. Seu passatempo predileto era empalar os inimigos, atravessando-lhes o corpo com uma estaca. Terminou decapitado numa floresta, em batalha contra os muçulmanos. Vlad adotou o sobrenome Drácula, que significa “filho do dragão”.
Não achei o nome dela no link.
ResponderExcluirFicou muito lindo o blog.